Gisele Quintino, a locomotiva da coloração. - HM em Revista
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Referência para quem quer ser referência em colorimetria, a educadora master internacional da Truss (@trusshair) ganhou até fã clube (Tropa da Gi) por trabalhar em suas aulas a grande frustração do colorista (não entregar o que a cliente pede) e escancarar que workshop que ensina receita de coloração não ensina nada. E ainda dispara: “60% dos profissionais que compram meu curso são cabelereiros das antigas, que perceberam que, se não se atualizarem nos novos jeitos de fazer loiro, não vão sobreviver” – dica que também vale para quem está chegando no mercado…

Cabeleireira há 24 anos, foi a frustração em não atingir o resultado de cor desejado que estimulou Gisele Quintino a buscar respostas diretamente com os técnicos das marcas de coloração e a repetir a exaustão tudo o que aprendia com eles e em cursos dentro e fora do Brasil. “Desisti muito rápido de cortar cabelo porque a química sempre encantou. Tanto que durante um tempo fui considerada a rainha do alisamento. Perdi o título quando recebi uma proposta para ser técnica júnior da Itallian Color Professional (@itallianhairtech), onde fui treinada pelo então diretor técnico da empresa, o saudoso Wagner Policarpo. Depois de mais ou menos um ano e meio, a proprietária da Truss, Manuella Bossa (@manuellabossa), que era cliente no salão onde eu trabalhava na época, me contou seus planos de fazer produtos para profissionais. Ela até já tinha uma pequena fábrica para isso, e me chamou para participar do desenvolvimento e dos testes. Aqui foi um convite à Disneylândia e eu, aceitei no ato, claro, mesmo ganhando mais na Itallian, porque estava fascinada com a ideia de poder ter contato direto com farmacêuticos e químicos e de participar da criação de um cosmético, desde a concepção até ele ir parar nos cabelos do consumidor final. Foi assim que participei do nascimento da Truss Color”, orgulha-se Gisele, que, para atingir a fórmula ideal, fez inúmeras experimentações em asilos e no próprio cabelo. “Hoje, 18 anos depois, me sinto privilegiada por ter ido além e agora estar envolvida em todo o universo da coloração: desde viajar o mundo e falar com cientistas, para ficar por dentro das tendências e aperfeiçoar meus conhecimentos; a estar dentro do laboratório, ajudando a desenvolver fórmulas e aprová-las; até dar aulas para cabeleireiros profissionais e aplicar o produto na cliente no meu Espaço Gi Quintino, em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo”.

 

O segredo das cores

No início da pandemia, em março de 2020, com salões fechados e cabeleireiros sem renda, Gisele ousou lançar seu curso de colorimetria avançada on-line pela Hotmart. Bateu o recorde na plataforma, vendendo quatro vezes mais do que o esperado; um sucesso inesperado para o período e que fez a Hotmart estimulá-la a lançar um livro na mesma toada, com previsão de lançamento em maio. “Foi emocionante saber que, mesmo no olho do furacão, as pessoas não perderam a esperança, estavam otimistas, estudando, trocando ideias comigo. Tanto que saltei de 38 mil seguidores no Instagram para quase 70 mil, que se autointitularam como Tropa da Gi, e mais de 2 mil deles fizeram meu curso”, conta ela, orgulhosa e acreditando que seu diferencial é o didatismo. “O que mais ouço é que descomplico e facilito o entendimento. E, não poderia ser diferente porque se você não entender de colorimetria não vai conseguir fazer uma mecha direito”. Entenda melhor no bate-papo a seguir:

 

HM Falando em colorimetria, onde o profissional mais erra?

Gisele Quintino O erro acontece já na largada, ou seja, no diagnóstico do cabelo, o que, fatalmente, leva à frustração de não conseguir entregar o que a cliente pede. Para ter ideia, muitos pensam que colorimetria é colorir. Não é. Trata-se de saber deixar o fundo de cor ideal para revelar a cor desejada. Para fazer uma analogia, é como passar uma tinta na parede, sem levar em consideração o estado atual dela, nem prepará-la antes e, ainda assim, acreditar que ela ficará do mesmo tom mostrado na lata. Não vai.

 

HM Qual o segredo de magos da coloração?

Gisele Quintino Eles dominam o fundo de clareamento, o Círculo Cromático, a Estrela de Oswald, a ação dos produtos nos cabelos e a diferença entre coloração, descoloração e tonalizante, além de terem estudado com o mestre em mechas, o Johnny Ramirez (@johnnyramirez), nos Estados Unidos, com quem eu também tive aulas.

 

HM Você diz que o jeito de fazer mechas mudou. O que não é mais como antes?

Gisele Quintino Antes, a gente tricotava mecha, pegava porções finas que saíam da raiz, não tinha efeito nem graduação de cor, o que fazia as morenas mechadas virarem loiras. As coisas começaram a mudar por volta de 2008, quando surgiram as mechas californianas, que muitos chamavam de sun kisses ou sun kissed, e, na sequência, o ombré hair, que imitavam o efeito queimado do sol no cabelo. Ambas um ensaio do look natural, que hoje é tendência. Some-se a isso a necessidade do profissional agilizar os processos químicos e chegamos às atuais técnicas de eriçar muito ou pouco os fios, e equilibrar a quantidade sombra deixada no cabelo para, por exemplo, criar morenas iluminadas ou atingir o desejado baby light (que causa desespero em quem não sabe reproduzir e aparece na timeline e no feed de todos coloristas com milhares de seguidores).

 

HM Os tons das mechas também mudaram completamente, não?

Gisele Quintino Sim! Apesar de muitos ainda usarem e gostarem, estamos saindo do cabelo frio, platinado e acinzentado para o dourado, nude, bege. Essa é a moda do Instagram que a cliente leva para a gente copiar, e que tem profissional surtando porque a vida inteira aprendeu a matizar com cinza ou azul e agora precisa deixar o amarelo para chegar ao tom iluminado. É por tudo isso que meu foco sempre foi ensinar o profissional a pensar como colorista, porque química é uma caixinha de surpresa e cada cabelo reage de um jeito, mesmo quando você atende irmãs gêmeas! Daí o meu mantra ser “o sucesso do colorista está intimamente ligado à quantidade de problemas que ele está capacitado a resolver”.

 

HM Uma de suas principais bandeiras é alertar sobre as misturas químicas incorretas; por quê?

Gisele Quintino Por incrível que pareça, e nossas pesquisas internas confirmaram isso, os erros acontecem porque o profissional usa o produto do jeito dele. Anulando todo o trabalho farmacêutico, químico e técnico de pesquisa e desenvolvimento, que foi realizado para usar especificamente àquela fórmula, de modo a garantir sua performance, e que foi detalhadamente descrito na embalagem do produto. Para ter ideia, diminuímos sensivelmente as reclamações sobre a coloração da Truss ao reforçar essa educação nos nossos cursos para salões parceiros, afinando essa linguagem com nossa equipe técnica e de vendas e postando tutoriais com passo a passo nas nossas redes sociais.

 

Chega de dor! E viva a cor!

Gisele conta quais são as maiores angústias ouvidas em suas aulas e como se desvencilhar delas:

 

  1. Não consigo entender colorimetria, não entra na minha cabeça, acho complicado demais!

Colorimetria é método, o que significa que você precisa entender a teoria e a técnica, o que inclui memorizar (sim, gravar, igual tabuada!) a Estrela de Oswald e fazer testes. Muitos, incansavelmente. Primeiro, em mechas compradas, que tenham fundos diferentes e usando vários oxidantes. Depois, em bonecas e, por fim, em modelos para, só então, sentir-se confiante e seguro para aplicar na cliente. E, importante: não pense que me ouvir falar vai te tornar um colorista. Colorista é treino, é experiência; é isso o que me torna capaz de fazer uma ruiva sem usar tinta ruiva, apenas potencializando ou anulando o fundo de clareamento da pessoa.

 

  1. Entro em pânico quando a cliente chega com uma referência de cor na mão e eu não faço a menor ideia de como entregar aquele resultado.

Tente deixar a insegurança de lado e gaste essa energia e parte do seu tempo para entender o desejo da cliente. E, lembre-se que você é o profissional ali e, portanto, precisa se posicionar em vez de silenciar. Avalie o cabelo, faça o teste de mecha para ver se ele vai suportar a química e cuidado com as promessas. Para ter uma ideia, até hoje eu dedico mais tempo fazendo diagnóstico e esclarecendo a análise do fio para a cliente do que fazendo a coloração. Isso traz segurança para ela e também para o profissional.

 

  1. Minha busca mais enlouquecida é saber fazer os novos loiros, já que sequer sei a diferença entre raiz esfumada, apagada, acentuada ou não.

Raiz esfumada é uma personalização da coloração, em que você cria um efeito de degradê para tirar as marcações das mechas a ponto de não permitir enxergar onde elas começam nem onde terminam. Já a raiz apagada é uma técnica de correção, usada para apagar uma mancha ou corrigir um dourado excessivo.

 

  1. Fundo de clareamento é o meu bicho-papão.

Não só seu. É nele onde 80% dos profissionais se perdem! A única forma de eliminar esse monstro é conhecer a Estrela de Oswald e treinar seu olho e seu feeling com muita, muita prática mesmo. Isso vale especialmente para fazer esses novos tons de loiro, que são dourados e bege. Para chegar neles, é preciso do amarelo em graduações diferentes e que sofrem interferência de tudo: da volumagem do oxidante, da espessura do fio, do fato dele ser virgem ou ter química, da saúde da fibra capilar…

 

 

Gisele, modo pessoa física

2007 foi um divisor de águas para a expert. “Naquele ano recebi o diagnóstico de câncer de mama, o que desencadeou uma síndrome do pânico. Também iniciei um processo de divórcio e comecei minha parceria com a Truss, que, para a minha surpresa, me apoiou em tempo integral. Tanto que não parei em momento algum; me revezava fazendo quimioterapia numa semana e evento da marca em outra. Trabalhar com o que eu amava e no que eu acreditava serviu como mola propulsora para que eu não fosse ao chão naquele momento tão desafiador. E é essa experiência intensa e transformadora sobre minha história pessoal e ascensão profissional que conto no livro Uma prisão sem muros, que acabei de lançar.

 

 

 

“Muitas vezes o cabeleireiro vai em cursos e workshops e ele acaba anotando receitas. E, às vezes, ele nunca vai atingir o mesmo resultado que viu na aula ou no palco, porque tudo depende do fundo de clareamento e da quantidade de sombra que ele vai deixar no designer de mecha”

 

Matéria de Shâmia Salem  para HM 29

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